Ao contrário do que se pode acreditar, o biodiesel não é uma invenção de um grupo de cientistas brasileiros e sim do esforço solitário de um deles, responsável também pela criação do chamado “bioquerosene”, produto à base de óleo de babaçu e que já está sendo testado em aviões e tem atraído olhares de todo o mundo.
O “pai” do biodiesel, como ficou conhecido, é Expedito José Parente,um cearense de 66 anos, professor de engenharia química da Universidade do Ceará, que por volta de 1970 desenvolveu o biocombustível usando plantas comuns do Nordeste. Ainda que na época não soubesse exatamente como industrializar a descoberta, a possibilidade de um produto com propriedades de combustão semelhantes às dos derivados de petróleo, mas com efeitos menos poluentes, demonstrou ser uma das grandes trunfos do Brasil na atualidade.
Amparado pela crescente onda de conscientização ecológica mundial nas últimas décadas, Parente acredita que o biodiesel pode se tornar uma commodity e se transformar na nova fonte de energia mundial, substituindo o petróleo. Ele também rebate com veemência as especulações de que as áreas de cultivo de matérias-primas poderiam comprometer o mercado de alimentos e defende que as premissas básicas dos biocombustíveis são justamente o equilíbrio ambiental e a diminuição da pobreza.
Como foi iniciar as pesquisas com o biodiesel e quais foram as motivações e principais descobertas?
Expedito Parente ” Desde o início da década de 1970 sempre me aprofundei nos estudos, pesquisas e desenvolvimentos de novos processos para a produção de etanol (álcool combustível) na Universidade Federal do Ceará. Naquela época, avaliávamos a transformação de materiais amiláceos (que contém amido), como a mandioca e o babaçu, entre outras substâncias celulósicas e resíduos florestais. Percebi que o etanol era um excelente combustível, mas ainda era restrito ao transporte individual e a motores pequenos, o que me causava insegurança. Percebi que estávamos resolvendo o problema errado porque a matriz energética dos combustíveis brasileiros deve ser voltada ao transporte, que é feito com óleo diesel. O álcool é para veículo de passeio. Com base nisso, iniciei a pesquisa a partir de matérias-primas oleaginosas que pudessem produzir o biodiesel. Uma vez, ao chegar ao laboratório fiz a síntese a partir do óleo de algodão, que naquela época era muito usado para cozinhar. Ao examinar a substância verifiquei que a viscosidade e as características aparentes se assemelhavam às do óleo diesel. Então realizei um ensaio de combustão num algodão e percebi que a matéria-prima queimava muito bem. Depois disso, consegui produzir dois litros de biodiesel puro.
Como o senhor avalia o processo atual de desenvolvimento do biodiesel no Brasil?
Expedito Parente ” Com as descobertas e transformações de matérias-primas oleaginosas e gorduras de animais chegamos à formula para a produção de biodiesel. Durante muito tempo esse assunto ficou na “prateleira” e o Brasil não se interessou porque todos os incentivos no país eram para a produção do álcool combustível. Havia muito interesse dos usineiros na produção desse tipo de combustível, pois o preço do açúcar no mercado internacional na década de 1970 estava muito baixo, o que tornava a produção de álcool mais viável. Em 1991, a produção de biodiesel começou a ser discutida na Áustria e Alemanha e, no fim da década, iniciamos os experimentos para a produção de biodiesel no Brasil. No final de 2007 o governo federal aprovou a adição de 2% de biodiesel ao diesel comum vendido no país e mais avanços devem ocorrer até 2010.
Quais são os entraves ainda existentes na cadeia de produção do biodiesel?
Expedito Parente ” Atualmente o que nos falta é o aperfeiçoamento no cultivo, distribuição das matérias-primas deste combustível com equilíbrio na cadeia produtiva. O Programa de biodiesel precisa ser regionalizado e a partir disso a questão da miséria no campo pode ser minimizada. Na região Norte temos as comunidades isoladas que não possuem acesso à energia. O único acesso que possuem para a produção de energia é feito a partir do óleo diesel, que possui custo elevado e é altamente poluidor por ser um derivado do petróleo. Nessas localidades a produção do biodiesel ajudará na inclusão social e na integração entre as comunidades espalhadas na floresta Amazônica. Em um segundo momento, seria interessante pensarmos nas áreas que foram desmatadas em todo o território brasileiro e desenvolver métodos de reflorestamento. Nessas áreas degradadas há grandes oportunidades para a construção de reservas energéticas que podem ser aptas para o cultivo de matérias-primas para a produção de biodiesel sem causar danos ao meio ambiente.
A região Centro-Sul está comprometida com a poluição atmosférica gerada pelos motores dos carros. A utilização do biodiesel minimizará essa problemática. O ponto positivo é que a região tem uma infra-estrutura que facilitará na exportação do biocombustível e produção mecanizada de matérias-primas como soja, amendoim e girassol.
Levando-se em conta os aspectos econômicos, ambientais e sociais, quais são os pontos positivos e negativos do biodiesel?
Expedito Parente – A produção de biodiesel tem três missões básicas. A primeira é o equilíbrio ambiental com a diminuição do uso de combustíveis derivados do petróleo para o combate ao aquecimento global. A segunda missão é social, pois toda a cadeia de produção do biodiesel busca a diminuição da pobreza. Hoje, cerca de 12 milhões de pessoas passam fome no campo, fato que poderia ser equacionado com a ocupação ordenada, geração de renda e a fixação do homem no campo. A terceira missão é tornar-se uma fonte de energia mundial, de modo a suprir as altas de preços dos derivados de petróleo das próximas décadas.
Como o senhor avalia as atuais políticas públicas no Brasil para a implantação desse combustível?
Expedito Parente ” O atual governo federal aposta muito na produção do biodiesel. Os governos do Ceará e Piauí também oferecem subsídios próprios para o cultivo de matérias-primas desse combustível. Isso tem servido de incentivo a outros Estados, que também começam a apostar muito na produção de biodiesel, como Acre, Amazonas, Maranhão, Paraná e Rio Grande do Sul.
O Brasil tem capacidade para produzir e exportar biodiesel em grande escala sem comprometer o cultivo para alimentos?
Expedito Parente ” A National Biodiesel Board (NBB), órgão responsável
por esse segmento nos Estados Unidos, divulgou há pouco tempo que o Brasil tem grande capacidade e potencial para a produção de 65% da demanda mundial de biodiesel. Com as áreas desmatadas na Amazônia e no Nordeste teremos condições reais de abastecimento para atender a demanda internacional. O mercado de alimentos não será prejudicado, pois a cadeia produtiva de biodiesel será desenvolvida paralelamente. Além disso, toda e qualquer matéria-prima oleaginosa é composta de duas porções principais. O lipídeo forma o óleo e as proteínas podem ser transformadas e adicionadas e misturadas às rações que alimentarão o gado, galinhas e animais em geral. No futuro, isso servirá como alimento à população.Existe perigo das plantações avançarem sobre as áreas florestais?
Expedito Parente ” Com certeza não há perigo das plantações de matérias-primas do biodiesel invadirem as florestas e unidades de conservação. Além de um planejamento de zoneamento adequado para que isso não aconteça, o Brasil tem grandes áreas disponíveis e que foram devastadas. Acredito que devem-se produzir primordialmente alimentos para os seres humanos. As áreas restantes, porém, que estão improdutivas, podem dar espaço para a produção do biocombustível. Enfim, é viável que produtores, usineiros e governo desenvolvam planos de zoneamento agrícola e florestal para que não faltem alimentos e que não se interrompa a produção de biodiesel.
O biodiesel pode tornar-se uma commodity assim como o petróleo?
Expedito Parente ” Sem dúvida! O biodiesel pode tornar-se uma commodity assim como está acontecendo com o etanol (álcool combustível) e o bioquerosene futuramente. Afinal, a tendência é que todo e qualquer biocombustível torne-se uma commodity cotado nas principais bolsas de valores de todo o mundo. É importante lembrar que o Brasil se prepara também para a produção de bioquerosene, que servirá para a locomoção de aviões. No momento, esperamos a liberação para a produção deste tipo de biocombustível para aviões. Isso deve ocorrer no período entre dois ou três anos.
Qual é a matéria-prima mais eficiente atualmente para a produção do biodiesel?
Expedito Parente ” Isso depende de cada região. Hoje em termos de produtividade o óleo de dendê retirado de palmeiras é o que oferece melhor produtividade, além de ser a mais conhecida entre as oleaginosas. A partir do óleo de dendê é possível produzir cinco mil litros por hectare de biodiesel por ano. Essa produção é praticamente igual a da soja. A mamona nos oferece de 600 a 700 litros por hectare a cada ano. O côco da Bahia, se bem cuidado, pode gerar até três mil litros de biodiesel por hectare/ano. Atualmente, em todo o mundo a soja não é mais a principal matéria-prima para a produção de biodiesel. O dendê já a ultrapassou, rendendo 35 bilhões de litros ano, enquanto da soja produz-se 34 bilhões de litros por ano. (Anna Karina Spedanieri).
Publicado por: victorfinzetto | Julho 17, 2008
A energia que movimenta o campo
Publicado em Energias Renováveis
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